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Pura Palavra

poesias e contos

Lacrimosa

 

Lacrimosa
 
Quando se morre, a cada dia,
morre também uma pequena luz no coração
um facho, outro, acende-se
na memória
 
no peito cresce o vazio
assustador
 
uma floresta aparece
árvores fantasmas
 
venta na superfície dos rios
velhas veias sem arte
enfartam-se, artérias
desembocando
em pororocas
nos pequenos canais
lacrimais
 
tania amares

fim

o céu tão azul
dissipa-se num tecido esgarçado
segue o mundo em ruínas

ah! pintura
nada segura
suas tintas

mar engole o hoje
ontem e amanhã revirados
no fundo, no lodo
jogados contra a areia escura

restos de peixes
comidos e largados
choram as sobras de seus ossos

a vida não vale a cor da tela
pintada num dia de sol

é pó
nada de nada
ecos de gritos

sonhos empalados
em bárbara tortura
sangue recolhido
em papel celofane

oferenda sacrificial apenas
para alegrar os que riem alto
os que ostentam poderes
e forças verdes e amarelas
ouro de nós tolos

tania amares

Resultado de imagem para oferenda católica

Olha

 

Olha

o nervo é óptico
fotografa, meu bem

hoje tudo é museu
eu, você, a luz

escuta os registros encarnados
da luz nervosa, múltipla
leve

na cidade, perde-se
o olho ao som parado
dos ônibus em greve

corre a fumaça das favelas
incendeia a arte, arde
exposta nas janelas

tania amares

 

Imagem Incêndio Museu da Língua Portuguesa

Resultado de imagem para incendio estação da luz

Dos canibais

Dos canibais

Não, meu corpo, não chores.
És carne sim.
Fraco, pequeno,
sujo, finito.

Sei que não dormes,
nunca conseguirás
acordar.

Não se acorda nessa vida.
Nenhum acordo habita
o pulsar do teu coração.

Sei, meu corpo,
ignoras:
toda mente,
mente.

Serás sempre,
exata e somente,
corpo.

O que cai,
o que se enforca,
tomba e some.

Envergonhados
corpos
do pó à lama.

Torpe, a Hipocrisia
venda a Justiça
e vende.

E vende !.

Podre mercado
de gente
fraca em carne
e mente.

tania amares

imagem Francisco Goya

Voz

Voz

Uivo espremido,
Silêncio da noite.
Barco pequeno,
Meio do mar,
Perdido.

Dentro,
Sopro insistente.
Boca apertada,
Vaia demente.

No palco,
Ursa Maior,
Presente.

Brilho de lágrimas,
olhos cintilantes,
Distantes.

– Segue, barqueiro,
Segue só.
Daqui o vejo.

Velo e revelo
Quem me olha.

Somos sóis
e sós.

tania amares

ilustração Caronte , barqueiro das almas
Gustave Doré

 

O que é um poema?

o que é um poema?

jorro de palavras emocionadas
comedida construção silábica
rio de ego em correnteza livre
exposição de idéias soltas
e/ou comprometidas

poema
quem tu és?

ah, se soubesses
dizer
mostrar
esconder

caro poema
meu amigo
contam que és
pura poesia

outros que não
que és qualquer coisa
entre o céu e o inferno

ainda que pequeno
mesmo que imenso
és só o que tenho

por isso
te amo

tania amares

carnaval 3 2015

Alma

poeminha alma

Vita Brevis

Alguns abraços sonham
apertar somente o corpo.

Os mais acolhedores,
porém,
envolvem a Alma.

Luz efêmera desamparada
a fugir por duas janelas
com saudades do Nada.

tania amares

Vita Brevis

Vita Brevis

Alguns abraços sonham
apertar somente o corpo.

Os mais acolhedores,
porém,
envolvem a Alma.

Luz efêmera desamparada
a fugir por duas janelas
com saudades do Nada.

tania amares

imagem autor desconhecido salvo de Pinterest
por Rogete Fernandes

in https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/…/1a2fde843c749add06ca…

tractatus pharophicus

Tractatus Pharophicus

cebola picada
alho, azeite
dois ovos

ops

há que se mexer

com
muito
carinho

tania amares

Além da conta

um dois três assassinos
quatro cinco seis assassinos
sete oito nove assassinos
mil indiozinhos mortos

jogadores, seguranças
fortões, enganadores
mentem
escondem mulheres
batem
trocam por chicletes

tantos espalhados
nas esquinas
bares, lares
igrejas e praças

um dois três assassinos
quatro cinco seis menininhas
sete oito nove indefesos
todos no mesmo barco

 

tania amares

Resultado de imagem para indiozinhos barco

As Néias

As Néias
 
não tem graça
a rua dos bobos
o número zero
 
às vezes a vida
é só
casa
de papel
no papel
 
rabiscos
sem teto
paredes
sem rede
 
casa sem colo
sem bolo
mas casa
tijolo
 
vão-se os dedos
ficam 100 anos
100 planos
 
anéis de fumaça
plantados em frente
à praça
 
tania amares

Resultado de imagem para casa engraçada

Sininho

Sininho

o dia caiu na farinha
o pão comeu a galinha

a boca, a minha, a tua
calou a cantiga

antiga
pendurada na janela
da terra
do nunca

tania amares

Bate o Sino

 

 

Bate o sino
.

No fundo do tacho

havia um bocado

tarde, muito tarde
.

quase nada

pequenina

os grandes gritavam
.

quieta, assustada

os grandes

gritavam
.

dormia, acordava

gritos moldavam-na

insignificante, resto, nada
.

ninguém saberia

um dia, a menina

cresceria
.

conseguiria? será?

ah ! ecos

repetem, repetem
.

não, não vão parar

rochas cansadas repetem

repetem
.

antigo, novo, o mesmo som

sa_son

sa_son
.

blem

blem

blem
.

por quem dobram os sinos?

por quem?
.

por ti, menina, por ti

meu bem
.

tania amares

imagem Las meninas  Pablo Picasso

picasso-las-meninas

 

Notre Dame

Notre Dame

Se tudo é farsa,
Salve o carnaval
Venal

Às claras,
Fantasias desfilam
Rubras

Premiação
Febre
Corpo & Ação

Saltitam notas
Cruéis,
Apoteóticas,
Caóticas.

Vai passar.

tania amares

Resultado de imagem para obras de moliere

As pessoas e as Salas

as pessoas e as salas

mandei plantar pessoas
explodi a sala de jantar
comi meu cordão umbilical
sem sal

foi preciso muito
açúcar para amenizar
o gosto de sangue

no bolo
assoprei meu corpo
que ardia

e arde
arde
arde
sempre é tarde

tania amares

Resultado de imagem para mutantes

Arq_épicos

arq_épicos

dentro de mim brincam
anjo e capeta
mãos dadas
sob o luar
da última noite
estrelada

tania amares

A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos de sol e texto

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